Aquecedores a gás e humidade: o problema escondido
Aquecem, mas também libertam vapor de água — e podem libertar monóxido de carbono. Porque pioram a condensação e o que usar em vez deles.

- Cada kg de butano ou propano queimado liberta mais de 1 kg de vapor de água na divisão: uma garrafa de 13 kg são cerca de 20 litros.
- Nunca use um aquecedor a gás num quarto enquanto dorme: além da humidade, há risco de monóxido de carbono.
- Radiadores a óleo e bombas de calor aquecem sem acrescentar vapor. Teste a diferença com um higrómetro de ~€10.
NESTE GUIA
Os aquecedores a gás aumentam a humidade em casa?
Sim. Um aquecedor a gás sem chaminé — de garrafa de butano ou propano, catalítico ou de infravermelhos — queima o gás dentro da divisão. Os produtos da combustão, incluindo o vapor de água, ficam no ar que você respira.
A química é simples: o butano e o propano são feitos de carbono e hidrogénio, e o hidrogénio, ao queimar, transforma-se em água. Por cada quilo de gás queimado forma-se mais de um quilo de vapor de água — pelas contas da combustão, perto de 1,5 kg. É física aproximada, mas a ordem de grandeza não engana.
Uma garrafa de 13 kg, queimada até ao fim, liberta cerca de 20 litros de água no ar da casa. Se durar duas semanas, são perto de 1,5 L por dia — a somar aos cerca de 10 L que uma família de 4 já produz a respirar, cozinhar, tomar banho e secar roupa.
Porque é que a água aparece nos vidros e nos cantos
O ar quente aguenta mais vapor do que o ar frio. Enquanto o aquecedor está ligado, a divisão parece confortável; quando esse ar toca numa superfície fria — o vidro simples, o caixilho de alumínio, o canto de uma parede exterior — arrefece abaixo do ponto de orvalho e a água deposita-se.
Exemplo: a 18 °C e 75% de humidade relativa, o ponto de orvalho é cerca de 13,5 °C. Numa noite de janeiro, a parede de um prédio dos anos 70 sem isolamento pode descer abaixo dessa temperatura junto aos cantos e à volta das janelas. Pode fazer as contas para a sua casa na calculadora de ponto de orvalho.
Mesmo sem gotas visíveis, se a superfície ficar acima de cerca de 80% de humidade durante dias, o bolor instala-se. É o quadro típico de condensação: pontos pretos atrás do roupeiro, no teto junto à fachada e no silicone das janelas, piores nas manhãs de inverno.
Porque é que o problema é tão comum nas casas portuguesas
Cerca de 70% das casas em Portugal foram construídas antes das regras de isolamento térmico, ou seja, antes de 1990. Paredes frias, caixilharia de alumínio sem corte térmico e vidro simples dão à água do aquecedor superfícies frias por todo o lado onde se depositar.
Ao mesmo tempo, o frio dentro de casa é real: 63,2% dos residentes em Lisboa referem desconforto térmico no inverno. A garrafa de gás é fácil de comprar e de mudar de divisão, por isso é muitas vezes a primeira solução — sobretudo em casas arrendadas sem aquecimento instalado.
O ar exterior também não ajuda: em Lisboa, em janeiro e fevereiro, a humidade relativa lá fora chega a 90–100%. Mesmo assim, arejar vale a pena, porque esse ar frio, ao aquecer dentro de casa, fica com uma humidade relativa bem mais baixa. A renovação tem é de ser regular, e não ocasional.
O risco que não se vê: monóxido de carbono
A combustão também consome o oxigénio da divisão. Se for incompleta — aparelho mal regulado ou sujo, pouca ventilação, divisão pequena — produz monóxido de carbono (CO), um gás sem cheiro nem cor.
Um detetor de monóxido de carbono a pilhas, colocado na divisão onde usa o aquecedor, é um complemento útil. Não substitui a ventilação: é um alarme para quando algo correu mal, não uma licença para fechar a janela.
Se usar aquecedor a gás: regras de ventilação e segurança
Muitas casas portuguesas não têm alternativa imediata, sobretudo arrendadas. Se o aquecedor a gás vai continuar a ser usado, estas regras reduzem tanto a humidade como o risco:
- Mantenha uma entrada de ar permanente: uma janela entreaberta ou uma grelha de ventilação desobstruída.
- Use-o em divisões amplas e por períodos curtos, para aquecer rapidamente — nunca a noite inteira.
- Não o use para secar roupa: junta duas fontes de vapor na mesma divisão. Veja como secar roupa dentro de casa com menos humidade.
- Verifique o tubo flexível e o redutor: o tubo tem a data de validade impressa e deve ser substituído quando expira ou quando estiver gretado.
- Depois de o desligar, areje 5–10 minutos para retirar o vapor acumulado.
- Siga as instruções do fabricante quanto à limpeza e à manutenção do aparelho.
Repare que arejar retira água mas também calor. É o preço de usar uma fonte de calor que produz vapor — e uma das razões por que, a médio prazo, outras formas de aquecimento compensam.
Alternativas ao aquecedor a gás
Qualquer aquecimento elétrico — ou com saída de fumos para o exterior — aquece sem acrescentar vapor ao ar da divisão. Não seca a casa por si, mas deixa de juntar água ao problema.
| Aquecimento | Vapor de água na divisão | Risco de CO na divisão | Custo de utilização (indicativo) |
|---|---|---|---|
| Aquecedor a gás sem chaminé | Sim, muito | Sim | Depende do preço da garrafa |
| Radiador a óleo elétrico | Não | Não | Alto por hora; calor suave e estável |
| Termoventilador ou convetor | Não | Não | Alto; útil para aquecimentos curtos |
| Bomba de calor / ar condicionado | Não | Não | Em regra, o mais baixo por unidade de calor |
| Salamandra ou lareira com chaminé | Não, com boa tiragem | Baixo, se bem instalada e mantida | Variável |
Os custos dependem do tarifário de eletricidade e do preço da garrafa, por isso a comparação é apenas qualitativa. A bomba de calor entrega, em regra, várias unidades de calor por cada unidade de eletricidade consumida, por isso costuma ser a mais económica a funcionar — embora exija um investimento inicial.
Num arrendamento, instalar ar condicionado precisa de acordo com o senhorio e, em muitos prédios, de autorização do condomínio por causa da fachada. Veja o que pode pedir em inquilinos.
Como medir o efeito do aquecedor na sua casa
Não precisa de acreditar em nós: um higrómetro de cerca de €10 mostra o efeito em dois serões.
- Numa noite, aqueça a sala com o aquecedor a gás durante duas horas e anote a humidade relativa antes e depois.
- Na noite seguinte, faça o mesmo com um aquecedor elétrico, com portas e janelas na mesma posição.
- Na manhã seguinte a cada teste, veja o estado dos vidros e do caixilho.
Se a humidade sobe para perto de 70% com o gás e fica nos 50–60% com o elétrico, já sabe de onde vem parte da água. O alvo dentro de casa é 40–60% — mais detalhes em humidade ideal em casa.
Se mesmo sem gás a humidade de manhã fica acima de 70%, há outras fontes ou falta ventilação. Faça o diagnóstico gratuito: pode bastar arejar melhor, ou pode precisar de um desumidificador.
Perguntas frequentes
Não por cada quilo de gás. A quantidade de vapor depende da quantidade de butano ou propano queimada, não do tipo de queimador: catalítico, de infravermelhos ou de chama, todos transformam o hidrogénio do gás em água. Um aparelho pode consumir menos gás por hora e, por isso, libertar menos vapor nesse período, mas o princípio mantém-se. Continua a precisar de ventilação.
Pode, e o desumidificador retira parte da água que o aquecedor liberta. Mas não retira o monóxido de carbono nem repõe o oxigénio, por isso a ventilação continua obrigatória. Na prática, está a gastar eletricidade para remover água que outro aparelho acabou de produzir; nesse cenário, um aquecimento elétrico pode fazer mais sentido.
Sim. O petróleo de aquecimento (querosene) também é um combustível com hidrogénio e, ao queimar dentro da divisão, liberta vapor de água e gases de combustão. As regras são as mesmas dos aquecedores a gás: entrada de ar permanente, uso por períodos curtos, nunca num quarto durante o sono e manutenção segundo as instruções do fabricante.
Se estiverem bem instalados, com exaustão de fumos para o exterior, os produtos da combustão saem pela conduta e não ficam na casa. O problema são os aparelhos sem saída de fumos. Mesmo assim, verifique se a conduta está desobstruída e se a manutenção está em dia, porque uma exaustão deficiente traz de volta o risco de monóxido de carbono.
Em modo de arrefecimento ou desumidificação, retira água do ar e escoa-a pelo tubo de condensados. Em modo de aquecimento não retira água, mas também não acrescenta vapor: a humidade relativa desce porque o ar aquece, embora a quantidade de água no ar fique igual. Mesmo assim, é uma diferença grande em relação a um aquecedor a gás.
FONTES
- Física dos edifícios: ponto de orvalho (fórmula de Magnus)
- Química da combustão do butano e do propano (estequiometria)
- OMS — Orientações sobre humidade e bolor em espaços interiores (2009)
- OMS — Orientações sobre qualidade do ar interior: poluentes selecionados (2010)
